O Movimento e o Canto Coletivo

Texto do Maestro Samuel Kerr que foi incluído no trabalho de Comunicação Visual do Rainer Jacobi para a FAU, em 1972.

Cantar em coro é a maneira mais fácil de fazer música. Não é necessário conhecer música teoricamente, nem ter estudo de canto. As deficiências individuais são compensadas no trabalho em conjunto e, com o passar do tempo, desenvolve-se a audição, a voz, desperta-se a musicalidade e prepara-se um apreciador de música.

Mas as inibições de uns e a generalizada ideia de que cantar é alguma coisa muito diferente do que falar impedem ou retardam o desenvolvimento vocal. Como falar é uma necessidade e ninguém toma consciência de como fala e que mecanismo leva a isso, quando canta sai do normal, se exibe, e acredita – ou por exibição mesmo ou para compensar a inibição – ser necessária uma predisposição especial para cantar. Daí tensões, que impedem a livre emissão da voz em prejuízo da afinação, “cor” do coro e da garganta de cada um.

Quando o Coral do Centro Acadêmico Manoel de Abreu da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de SP pediu ao Rainer Jacobi um cenário, ou uma ambientação, ou enfim, uma forma visual diferente de apresentação, não sabia que iria passar por uma experiência de imediata repercussão no rendimento vocal.

Durante os preparativos não só estavam cantando junto, mas preparando coletivamente, segundo a orientação do Rainer, o próprio estrado e o uniforme (dois problemas que todos os corais enfrentam), com uma solução barata e divertida e, principalmente, descontraída, condição primeira para o rendimento vocal: uma solução descontraída.

Cantar em público não é uma coisa fácil, mas enfrentá-lo carregando tábuas, caixotes, latas, barris, estandartes, usando as roupas mais inesperadas e falando com esse público, fez com que o público se surpreendesse com o cantor e não o cantor com o público, e a montagem do estrado no palco à vista de todos impediu qualquer tensão nervosa ou posição especial para cantar.

Nessa primeira experiência a música não saiu melhor porque tudo foi ensaiado em dez dias, mas foi suficiente para provar o quanto se poderá realizar nessa linha – o desenvolvimento do cantor alcançado inconscientemente através de uma criação coletiva não musical que o desinibiu e o estimulou a produzir música.