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O canto coral passou por várias mudanças na década de 70, assumindo a musicalidade brasileira tanto no repertório quanto no gestual, e evoluindo para incorporação de outras artes associadas ao canto, como dança e teatro. A trajetória do maestro Samuel Kerr realizou esse percurso, por isso a iniciativa de agrupar documentos vários para disponibilizar uma história de inequívoco talento musical, associado a uma postura que rompeu com os padrões antigos do canto coral brasileiro, renovando a cena musical.

É importante salientar a intenção documental de contar uma história que ainda não tem registros suficientes, e de reiterar a necessidade de documentação de trabalhos corais, tanto profissionais como de coros amadores. Documentar um coro cênico é sempre importante, a depender do trabalho musical realizado ou das outras artes que o acompanha, ou ainda da narrativa de um trabalho específico.

A intenção, neste primeiro tratamento da documentação do coro cênico, é tratar do primeiro grupo coral em que essa concepção de trabalho apareceu, que foi com o Coral da Santa Casa de São Paulo, regido por Samuel Kerr, em 1972- são fotografias que mostram as fases do trabalho quanto à montagem do estrado, o figurino, os ensaios gerais e as coreografias durante apresentações. Mas há também fotografias nos intervalos de ensaios, mostrando momentos descontraídos. Os registros durante as atividades – ensaios ou apresentações – ganham mais relevância pelo fato de não terem sido projetados para serem exibidos, isto é, mostram os cantores em sua desenvoltura natural, focados no momento musical em que estavam.

O primeiro germe do coro cênico foi a introdução de músicas brasileiras populares, com arranjos do próprio Samuel Kerr, e foi notório que os cantores cantavam esse repertório brasileiro de um modo mais solto, com “ginga”. Além disso, estavam em curso outras mudanças, Samuel havia inquirido por uma referência na faculdade de arquitetura, e veio Rainer Jacob, aluno do Flávio Império, famoso cenógrafo da época, e Jacob concebeu um projeto para um estrado, com o intuito de que os próprios componentes carregassem e montassem as suas partes, sendo ele multicolorido e em vários planos. Porém, antes desse estrado ficar pronto, o estrado provisório foi montado com tábuas, caixotes e barris. Para os figurinos, Império havia sugerido revirar o “baú da vovó”, e assim foi feito. “Vovós” foram acionadas e um mundo de roupas antigas, aparentemente sem nexo, ganharam formatações de noivas, padres, bandidos, melindrosas, prostitutas… e uma cidade se formou para um programa que iniciava com o chamado de um “bobo da corte” para as canções do espetáculo “Rei chegô”, com seus estandartes coloridos, e seguiam-se músicas de Chico Buarque, Caetano Veloso, Dorival Caymmi e Ernst Mahle.

A primeira apresentação desse concerto foi no Mackenzie, em Maio de 1972, logo em seguida uma viagem a Salto de Itu, onde a apresentação foi um sucesso de público, mas com a crítica musical dizendo que Kerr queria escamotear a música, apresentando teatro em vez de música.

Com o sucesso dessas apresentações, ficou claro que o trabalho continuaria, e deveria ser apurado. Para isso, foi realizado treinamento quanto à postura cênica com o ator Oswaldo Loureiro, que na época era ator da Globo; quanto à dança realizaram-se sessões com um bailarino do Stagium, Milton Carneiro, que realizou belas marcações coreográficas, aqui documentadas na apresentação realizada na Bienal de Arquitetura de 1973. Nesta época, o coro da Santa Casa já contava com o estrado projetado pelo Rainer Jacobi.

Nesta montagem constam fotografias da apresentação no Mackenzie (1972), em Salto de Itu (1972), em Porto Alegre(1972) , na Bienal de Arquitetura(1973) e no Anhembi -SP (1974).

Samuel se manteve no Coral da Santa Casa até 1974. Depois, continuando com a concepção de coro cênico, trabalhou com a Associação Coral Cantum Nobile, e posteriormente ainda vieram Coral Paulistano, do Teatro Municipal de São Paulo, Cia Coral, Coral do SESC e Coral da UNESP, onde Samuel foi professor de regência.

Este trabalho foi concebido como um trabalho acadêmico, na disciplina Oficina de Curadoria, ministrada pelo professor Cauê Alves, do curso de Artes: História, Crítica e Curadoria , da PUC de São Paulo. Ele consta de um acervo de 122 fotografias que datam de 1972 a 1974, mais gravações em vídeo com o maestro Samuel Kerr realizadas em São Paulo, em Abril de 2015.

As fotografias foram divididas segundo fase do trabalho do coro, a saber, estrado, figurinos, coreografias, ensaios de posicionamento e as apresentações, que foram subdivididas nos locais realizados, da mais antiga até a mais recente: Mackenzie, Salto de Itu, Porto Alegre, Bienal de Arquitetura e Anhembi SP.

A maioria das fotos, exceto quando se trata de apresentações, são de autoria do maestro Samuel Kerr. As das apresentações, a maioria tem autoria desconhecida, e um pequeno número é de fotos oficiais, isto é, ligadas ao promotor do evento.

Nas fotos das apresentações de Porto Alegre, sabemos tratar-se de um colega da Santa Casa, mas perdemos o contato com ele; as fotos tiveram um tempo de exposição maior, o que resultou num efeito belíssimo.

João Batista Teodoro da Silva

São Paulo, 22 de Junho de 2015